Seguidoras da bruxaria buscam quebrar estigmas e  consolidar crenças como religião

Seguidoras da bruxaria buscam quebrar estigmas e consolidar crenças como religião

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A Convenção de Bruxas e Magos do Brasil ocorre anualmente desde 2003 na vila de Paranapiacaba e teve 75 mil visitantes na sua mais recente edição, que durou 3 d


A Convenção de Bruxas e Magos do Brasil ocorre anualmente desde 2003 na vila de Paranapiacaba e teve 75 mil visitantes na sua mais recente edição, que durou 3 dias Divulgação Você pode não acreditar em bruxas, mas que elas existem, existem. No Brasil, por exemplo, milhares delas comemoraram em 21 de junho o solstício de inverno. Trata-se da noite mais longa do ano no hemisfério Sul, na qual celebram o Festival de Yule, uma das mais importantes dentre as muitas datas sagradas dessa fé. Para algumas pessoas pode soar estranho que a bruxaria seja referida como fé religiosa. Mas Fábio Stern, cientista das religiões e doutor na área pela PUC-SP, explica: “A bruxaria de nossos dias se configura como uma nova religião. As bruxas modernas têm um sistema de crenças, práticas, mitos, valores e rituais próprios”. No Brasil, segundo ele, há grupos organizados de pessoas “que se identificam enquanto bruxas, constituem associações religiosas, reúnem-se para seus rituais e pagam impostos como quaisquer cidadãs”. Ele conta que o reconhecimento da legitimidade de uma bruxa, de quem pertence ou não ao grupo, “cabe somente ao próprio grupo, assim como só cabe aos cristãos reconhecerem seus pares e o que vale ou não para o cristianismo”. ‘Bruxas não lançam bolas de fogo pelas mãos’, diz Claudhia Issa, do Conselho Municipal de Defesa e Promoção da Liberdade Religiosa da Cidade de São Paulo Chico Max/Divulgação “Quem está de fora pode não acreditar em bruxaria, mas tem a obrigação de respeitá-la”, diz Stern. Foi em busca de respeito que as bruxas brasileiras se articularam e fundaram, em 2017, a Associação Brasileira de Bruxaria (ABB), presidida por Tânia Gori. “A palavra ‘bruxa’ carrega muitos estigmas históricos, principalmente ligados ao medo, à perseguição e à incompreensão do feminino, da natureza e dos saberes populares”, diz. “Por isso, uma parte importante do meu trabalho é justamente ressignificar essa imagem. Para mim, ser uma bruxa está muito mais relacionado à consciência, ao conhecimento e à conexão com os ciclos naturais da vida do que à fantasia criada pelo imaginário popular.” A ABB é a entidade que organiza a Convenção de Bruxas e Magos do Brasil, que ocorre anualmente desde 2003 na vila de Paranapiacaba, região metropolitana da capital paulista. No último fim de semana de maio, 75 mil visitantes lá se reuniram para sua 21ª edição ao longo de três dias, consolidando o evento como o maior do tipo na América Latina e o terceiro maior do mundo, atrás do alemão Walpurgisnacht e do americano Salem Haunted Happenings & Annual Witches’ Ball. O Brasil abriga uma das maiores populações de bruxas do globo. Fontes acadêmicas, diz Stern, reportam em torno de 100 mil bruxas no país. Dentro desse número há um núcleo duro de integrantes de “covens” (grupos de bruxas) estruturados, os quais têm a bruxaria como identidade primordial, que chega a 7 mil pessoas. Thalita Leal: bruxaria e feminismo Divulgação As bruxas locais se espalham por todo o Brasil, em grandes centros urbanos (paradoxalmente, a bruxaria contemporânea se apresenta como uma religião camponesa, mas prospera sobretudo nas cidades). Praticantes de bruxaria só muito raramente vivem apenas de sua fé. “Suas profissões são as mais variadas”, diz. “Existem bruxas professoras, psicólogas, advogadas, designers, médicas, publicitárias, artistas plásticas etc.” Esse é um campo dominado por mulheres, pelo menos no Brasil. Há homens, geralmente chamados de magos ou feiticeiros, mas são comparativamente poucos. Uma razão possível é que na bruxaria muitas mulheres encontram uma libertação que não é só espiritual; é também social. “Quando me converti à bruxaria, fiquei conhecida no município como A Bruxa de Oz”, brinca Thalita Leal, de Osasco (SP), que adota o nome místico Awenâ Venom. “Bruxaria e feminismo são intimamente ligados entre si. Para além de ervas, poções e feitiços, a bruxaria é sobretudo uma luta, uma bandeira política declarada contra o patriarcado e o capitalismo.” Tânia Gori busca ressignificar as bruxas Dirceu Santana/Divulgação Outra explicação é que no Brasil as vertentes mais populares da bruxaria derivam da Wicca Hiperbórea, ramo da religião que tem discurso e procedimentos fortemente voltados às mulheres. Nela as seguidoras cultuam uma divindade à qual se referem como A Deusa ou Grande Mãe. Mas mesmo bruxas brasileiras de outros ramos não raro também cultuam entidades femininas. É o caso da própria Thalita, que venera Cerridwen, uma deusa do País de Gales, no Reino Unido. “Os mistérios e as medicinas de Cerridwen são absolutamente presentes e centrais na minha vida”, diz. Como em quase toda religião, a bruxaria tem divisões internas. No Brasil três vertentes são mais presentes: Wicca tradicional britânica, com liturgia e sistema de graus de iniciação rigorosos; Wicca feminista, forte no país e que aparece com nomes como Tradição Diânica do Brasil ou Wicca Diânica Nemorensis; e a bruxaria natural, muito diversa e que não possui um sistema único e oficial de iniciação (Tânia Gori, da ABB, segue esse ramo). Há ainda praticantes de escolas minoritárias como o Cochranianismo (animista, focado no culto aos ancestrais, com prática mais mágica do que devocional), a Stregheria (mistura de folclore italiano, remotos rituais romanos e etruscos e feitiçaria camponesa) e movimentos de decolonização da bruxaria, que adaptam a Wicca ao clima e ao ecossistema brasileiro. Além dessas, a religião guarda outras ramificações que surpreendem. Uma delas é a bruxaria ctônica, representada no Brasil por uma bruxa paulista cujo nome místico (o único que usa) é Obsidiyana. O ctonismo, fonte dessa crença, surgiu na Antiguidade entre os gregos. Seus adeptos, em vez de tentarem agradar aos deuses do Olimpo, interessavam-se pelas forças que, acreditavam, viviam abaixo do solo. Não cultuavam Zeus, Apolo ou Atena, mas sim Hades (deus do submundo e das riquezas ocultas da terra), Hécate (deusa dos espíritos e dos mistérios noturnos) e, em especial, Perséfone (rainha do reino dos mortos e personificação dos ciclos da natureza). “Eu sou uma sacerdotisa de Perséfone”, apresenta-se Obsidiyana. “Sou casada há 13 anos, meu marido também é bruxo. Temos dois filhos. Juntos nós os criamos em um lar pagão, onde a bruxaria ctônica manifesta-se como importante influência na educação que damos a eles.” Ela enfatiza: “Não tem como separar meu sacerdócio da minha própria vida. Não é como uma roupa que visto. É uma maneira de viver, existir, de se comportar e caminhar por esse mundo”. Obsidiyana já escreveu um livro para explicar sua fé, “O caminho de Perséfone” (Editora Aleph, 240 págs., R$ 89,90). Não obstante tantas doutrinas, deve-se ter em mente que a bruxaria dos tempos atuais é exercida sobretudo de forma solitária, por mulheres que não se filiam a nenhum dos segmentos da religião. A socióloga americana Helen A. Berger, estudiosa do tema, publicou em 2019 um livro intitulado “Solitary Pagans: Contemporary Witches, Wiccans, and Others Who Practice Alone” (Pagãos solitários: Bruxas contemporâneas, Wiccanos e outros que rezam sozinhos, em tradução livre), no qual diz, com dados estatísticos, que a inundação de informações trazida pela internet havia atomizado a bruxaria, com muitas pessoas se autoproclamando bruxas e realizando sozinhas cultos e cerimônias em suas casas e apartamentos. Uma questão algo delicada para as bruxas de nossos dias é a capacidade que teriam, segundo o imaginário popular, de fazer com sua magia o impossível — digamos, controlar o clima ou adivinhar o futuro (respectivamente, tempestates facere e futura praedicere, expressões em latim cunhadas pela Inquisição, braço da igreja medieval que perseguia bruxas e mulheres acusadas de sê-las). A maioria das bruxas atuais desaprova ser vista dessa forma. É o caso de Claudhia Issa. “A ideia de ‘poderes mágicos’ normalmente vem da ficção, do cinema e da literatura. A bruxaria contemporânea não funciona como nos filmes”, diz ela, que integra o Conselho Municipal de Defesa e Promoção da Liberdade Religiosa da Cidade de São Paulo. “Bruxas não lançam bolas de fogo pelas mãos nem fazem feitiços instantâneos como na fantasia”. Bruxas, segundo ela, desenvolvem “grande sensibilidade intuitiva, percepção energética, conhecimento ritualístico e conexão simbólica com a natureza e os ciclos da vida”. Isso, diz, não significa possuir ‘superpoderes’ sobrenaturais”. Contudo, há bruxas que divergem a respeito. Obsidiyana é uma delas. “Eu tenho poderes mágicos, sim, e eles são por mim reivindicados através da conexão com as divindades ctônicas”, diz. “Para mim, não existe poder mágico de fato se não há um trabalho profundo de confronto com a própria escuridão, com suas potências, mas também com suas partes irrecuperáveis, renegadas e oriundas do trauma”. Dores estiveram presentes no passado de muitas mulheres que hoje se dedicam à bruxaria. Sol Oliveira, uma bruxa que mora no interior do Rio Grande do Sul, com seu marido e sua filha pequena, trabalha como cartomante e atende via internet mulheres no Brasil e no exterior. “Minha infância e adolescência foram marcadas por experiências difíceis, situações de violência em contextos que deveriam representar proteção e acolhimento. Saí de casa muito jovem, precisei aprender cedo a sobreviver sozinha”, conta ela. “Nesse cenário, a bruxaria foi para mim um caminho no qual a mulher não precisa ocupar um papel passivo na espiritualidade, mas pode construir uma relação sua com o sagrado, com o conhecimento e com a própria subjetividade.” Ela diz que hoje entende sua trajetória espiritual como resultado de um longo processo de busca, “reconstrução e reconexão comigo mesma. Mais do que uma mudança religiosa, a bruxaria representou em minha vida a chance de construir uma espiritualidade mais autônoma, intuitiva e alinhada com quem de fato sou”.
Fonte original: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2026/07/02/seguidoras-da-bruxaria-buscam-quebrar-estigmas-e-consolidar-crencas-como-religiao.ghtml
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