Vorcaro e publicitário mandaram vasculhar vida de jornalista Malu Gaspar: 'Preciso calar essa mulher'
Diálogos obtidos pela Polícia Federal (PF) mostram que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e o publicitário Thiago Miranda, proprietário da agê

Diálogos obtidos pela Polícia Federal (PF) mostram que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e o publicitário Thiago Miranda, proprietário da agência Mithi, atuaram para tentar impedir o trabalho da jornalista Malu Gaspar, colunista do GLOBO. A insatisfação surgiu a partir de reportagens que abordaram investigações sobre a instituição financeira devido a operações fraudulentas e manipulação de preços. Após as reclamações de Vorcaro, Miranda afirmou que iria "revirar a vida" da jornalista, e repassou ao ex-banqueiro informações sobre familiares, contas bancárias e endereço da profissional. As mensagens extraídas do celular de Vorcaro são de março e abril de 2025. Àquela altura, o Master já enfrentava a crise financeira que culminaria, em novembro do mesmo ano, na decretação de sua liquidez extrajudicial pelo Banco Central (BC). No diálogo, Vorcaro afirma que precisa "frear a Malu Gaspar", que "iria dar trabalho nos próximos dias" após ter tido uma entrevista "bem ruim" com ela. Miranda, então, concorda com o ex-banqueiro e encaminha uma reportagem da jornalista sobre as suspeitas de fraude envolvendo o banco. As mensagens foram divulgadas pelo site Fatos on-line e confirmadas pelo GLOBO com fontes responsáveis pelas investigações. Leia o diálogo: VORCARO: Acho que você deve entrar né. VORCARO: Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal. MIRANDA: Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela. MIRANDA: Alguma coisa vamos achar. VORCARO: Obrigado, amigo. Em seguida, ao longo da manhã do dia 1° de abril de 2025, Miranda envia as primeiras informações a Vorcaro: "Meu time está atrás. Precisamos achar algo", escreve o publicitário. "Nem multa na CNH dela encontrei. Filhos novos ainda também. Te deixo ciente, vou achar algo", completa. Já no dia seguinte, Miranda envia a Vorcaro outra reportagem. No material, a colunista divulgou que as demonstrações financeiras do Master em 2024 mostravam que o banco não tinha disponibilidade de caixa para honrar todos os compromissos assumidos até o final de 2025. À época, o Master estava sendo negociado com o Banco de Brasília (BRB), processo que terminou sendo reprovado pelo BC. "Ela não para", escreveu Miranda, que também enviou dados sobre as contas bancárias e rendimento mensal de Malu. "Realmente, meu amigo, não tem absolutamente nada", desabafou o publicitário. Em mensagens posteriores, Vorcaro menciona a possibilidade de fazer uma "proposta milionária" para Malu. Miranda sugere que o ex-banqueiro a contrate pela revista IstoÉ — que pertence ao grupo Entre, que controla a Entre Investimentos, mesma empresa usada por Vorcaro para investir no filme "Dark horse", sobre a vida de Jair Bolsonaro, de acordo com o site Intercept Brasil. Vorcaro responde, então, que quem deveria tentar a contratação era o próprio Miranda. Na época, ele era CEO do Grupo LeoDias, onde chegou a ter participação como sócio. Em nota publicada em janeiro deste ano, o veículo afirmou que Miranda deixou o cargo em junho de 2025. Nesse momento da conversa, Miranda encaminha mensagens com a suposta remuneração mensal e o endereço completo da jornalista, além de informações sobre seu carro de uso pessoal. Ambos entraram em consenso sobre o salário e até valores de luvas contratuais que ofereceriam para Malu como forma de travar a produção do conteúdo investigativo que revelou os escândalos do Banco Master. Leia o diálogo: VORCARO: Malu e Lauro vieram com mais fúria após a abordagem. VORCARO: Lauro soltou 5 matérias em 3 dias. VORCARO: Não sei como ficaram as tratativas, mas acho melhor abortar. MIRANDA: Eles me pediram tempo para organizar a vida. MIRANDA: Eu vou por outro caminho. Vou descobrir algo. Eles não são santos. Sobre esses fatos, O GLOBO publicou a seguinte nota: "O GLOBO repudia a devassa ordenada pelo investigado na vida da colunista Malu Gaspar, uma das mais respeitadas jornalistas do país. A ação, como deixa claro a troca de mensagens, visava calar a voz da imprensa e revela um modus operandi do grupo criminoso, que já havia ameaçado de ato violento outro colunista do jornal. Os envolvidos nessa trama de perseguição devem ser investigados com rigor. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público." A divulgação do teor das mensagens reforça o modus operandi do grupo de Vorcaro na tentativa de coagir o trabalho da imprensa. Na decisão que mandou prender Vorcaro pela segunda vez, em março deste ano, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou haver indícios de que o ex-banqueiro determinou que se forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para “prejudicar violentamente” o colunista do GLOBO Lauro Jardim. O objetivo, diz Mendonça, era, a partir do episódio, “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”. Daniel Vorcaro e Thiago Miranda Ana Paula Paiva/Valor e Reprodução/O Globo
Comentário enviado! Ele será exibido após aprovação.