Sob Trump, divisões e incertezas marcam 250º aniversário da independência dos EUA

Sob Trump, divisões e incertezas marcam 250º aniversário da independência dos EUA

6 min de leitura 4 visualizações Fonte original

Visitantes passam diante de um mural que retrata a assinatura da Declaração de Independência, no Arquivo Nacional, em Washington: oposição acusa instrumentaliza


Visitantes passam diante de um mural que retrata a assinatura da Declaração de Independência, no Arquivo Nacional, em Washington: oposição acusa instrumentalização política da data John McDonnell/AP Os Estados Unidos se preparam para celebrar amanhã os 250 anos de sua independência, quando as 13 colônias britânicas declararam oficialmente sua separação do domínio da Coroa. A data que normalmente une o país ocorre, porém, em um cenário de profunda divisão - marcada pelas controvérsias envolvendo o governo do presidente Donald Trump e por transformações que colocam a superpotência diante de um momento crítico. “Os EUA estão mais divididos do que nunca, mais divididos politicamente e socialmente desde a Guerra Civil”, diz Alexander Keyssar, professor de História e Ciências Políticas em Harvard. “Já não existem mais consensos sobre mudanças.” Ao contrário do cenário atual, em 1776, foi a partir do consenso coletivo entre os delegados do Segundo Congresso Continental que se aprovou o texto final da Declaração de Independência - documento que expunha os abusos de poder do rei George III e estabelecia princípios iluministas de liberdade, igualdade e autogoverno que passariam a orientar a narrativa nacional, ainda que muitos fossem controversos em uma época em que a escravidão ainda existia. “Os fundadores defendiam o direito de formar uma nova nação porque estavam sendo governados por um líder que concentrava poder em excesso, dificultava a naturalização de novos cidadãos e interferia nos tribunais”, diz Chandra Manning, professor de história dos EUA na Universidade de Georgetown. “Nunca houve um momento na história dos EUA em que existisse um consenso perfeito. Mas os avanços mais importantes do país sempre ocorreram quando as pessoas conseguiram encontrar um caminho comum”. Nenhuma nação dominante permanece dominante para sempre” À sombra de um cenário político extremamente polarizado, as comemorações deste ano ganharam novos contornos sob Trump. Desde seu retorno à Casa Branca, o republicano utilizou seus poderes presidenciais para intimidar adversários, enfraquecer agências federais, restringir a imigração e impor uma política externa cada vez mais hostil. Com a aproximação do 4 de Julho, os planos do presidente para a celebração acumularam acusações de politização de eventos destinados a celebrar o nascimento da nação. Entre os eventos programados para a data, como shows, queima de fogos e demonstrações aéreas, o presidente afirmou que fará um “comício do Trump”. No ano passado, a Casa Branca criou a Freedom 250, uma parceria público-privada, para organizar eventos comemorativos, apesar da existência da America250, uma comissão criada pelo Congresso que passou anos planejando as atividades. “O conteúdo da Declaração provavelmente perdeu importância para a maioria dos americanos, embora eles ainda a considerem um marco fundamental na história do país”, diz o historiador Michael Kazin, especialista em política e movimentos sociais dos EUA. “O presidente Trump, por exemplo, tem todos esses planos para a celebração, uma grande feira, quer construir um grande arco comemorativo para marcar a data. Mas, se você lhe perguntasse detalhes sobre a Declaração, acho que ele não saberia muita coisa.” Em meio a intensas divisões partidárias e ideológicas, um em cada cinco americanos diz que não vai comemorar o Dia da Independência este ano - incluindo um quarto dos democratas e 8% dos republicanos, segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos. Dois em cada cinco não acreditam que o país sobreviverá por mais 250 anos. “Acho que existe uma enorme instabilidade nas bases ideológicas que definem o que esta nação é e o que ela pode vir a ser”, diz Keyssar. “Os EUA sempre tiveram orgulho de si mesmos. Criamos uma espécie de mito nacional segundo o qual éramos os porta-estandartes da democracia no mundo, os representantes dos valores democráticos. Hoje essa afirmação é muito mais difícil de sustentar na era Trump.” Segundo Keyssar, em termos de desenvolvimento econômico, o país seria irreconhecível para os signatários da Declaração - tornou-se uma nação continental, com uma economia de escala industrial sem paralelo em 1776. Ao longo de dois séculos e meio, essa evolução foi acompanhada por uma concentração gradual de poder no governo federal, especialmente na Presidência. “Há um grande segmento da população - não uma maioria, mas um grupo significativo - que se consolidou em torno de Trump e das pessoas ao seu redor e que já não acredita mais na regra da maioria”, diz. “Esse grupo teme o governo da maioria porque acredita que ele levará à sua derrota. E nossas instituições tornam possível que uma minoria governe o governo federal. É exatamente isso que estamos enfrentando agora.” Especialistas apontam que a questão migratória concentra algumas das tensões mais simbólicas do momento. A Declaração de Independência criticava, entre outros aspectos, as restrições impostas pela Coroa britânica à imigração e à naturalização de estrangeiros nas colônias. Na semana do 250º aniversário, a Suprema Corte rejeitou uma ordem executiva de Trump que buscava acabar com a cidadania por direito de nascimento - garantida pela 14ª Emenda - para filhos de pais imigrantes em situação irregular no país e de turistas em visita temporária. “A 14ª Emenda é um dos exemplos de momentos em que os americanos realmente tomaram medidas para reduzir a distância entre a realidade e os ideais proclamados na Declaração”, afirma Manning. “Os EUA, em sua melhor versão, mantêm a aspiração aos princípios da Declaração de independência como parte central de sua identidade. O que acontece é que o grupo que está no poder tende a influenciar qual interpretação desses princípios recebe mais espaço. E a interpretação que está no poder neste momento não é aquela que considera a busca por esses ideais como a razão fundamental da existência do país.” Para Kazin, a cidadania por direito de nascimento tornou-se um dos pilares do excepcionalismo americano, conceito que ajudou a moldar a identidade nacional por gerações. Mas esse sentimento de singularidade também dá sinais de desgaste. Uma pesquisa do Centro de Pesquisa de Assuntos Públicos da AP-NORC constatou que apenas 44% dos entrevistados consideram os EUA um dos melhores países do mundo. “O próprio slogan ‘Make America Great Again’ parte da premissa de que o país já foi grandioso, de que era um lugar maravilhoso antes que os liberais, a esquerda, os comunistas - ou quem quer que Trump responsabilize pelos problemas - ganhassem mais poder”, diz. “Mas é contraditório pensar que, se os EUA são um país tão extraordinário, ele seria ainda melhor se menos pessoas viessem para cá”. Assim, os EUA chegam ao seu 250º aniversário celebrando a trajetória que os transformou na principal potência global, mas cercados por dúvidas sobre os rumos das próximas décadas. “Nenhuma nação dominante permanece dominante para sempre. Hoje outros países - especialmente a China - já estão à frente dos EUA em alguns aspectos”, diz Kazin. “Também acho que o fato de os americanos estarem há muito tempo insatisfeitos com seu governo - por diferentes motivos, dependendo de estarem à direita ou à esquerda - reforça a percepção de que o país está em declínio. E, se a maioria dos americanos acredita nisso, será necessário um enorme esforço, além de mudanças no cenário internacional, para alterar essa percepção.”
Fonte original: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/07/03/sob-trump-divisoes-e-incertezas-marcam-250o-aniversario-da-independencia-dos-eua.ghtml
Salvar WhatsApp X

Comentários

Seja o primeiro a comentar!

Entre na sua conta para comentar.

Entrar Criar conta

Leia também

Próxima notícia

AD

03 de jul. de 2026

Além de Trump, vice-presidente e primeira-dama dos EUA também aumentaram fortunas em 2025

Fique por dentro das notícias

Receba os melhores conteúdos diretamente no seu e-mail.

💡 Sugestões