Médico da seleção brasileira em três Copas defende uma medicina além dos exames

Médico da seleção brasileira em três Copas defende uma medicina além dos exames

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Lula Palomanes A Copa do Mundo está sendo disputada longe do Brasil, mas nas últimas semanas o celular do doutor José Luiz Runco no Rio de Janeiro não parou de


Lula Palomanes A Copa do Mundo está sendo disputada longe do Brasil, mas nas últimas semanas o celular do doutor José Luiz Runco no Rio de Janeiro não parou de tocar. Jornalistas, radialistas, comentaristas, influenciadores de rede social e até uns amigos curiosos tinham todos a mesma pergunta: e o Neymar, doutor? “Me mandam uma foto das pernas e dos joelhos do Neymar e pedem para eu avaliar. Pode isso? Não estou lá, não vi nem conversei com o jogador... Seria profundamente antiético falar qualquer coisa”, diz ele, espantado, um dos mais experientes e laureados profissionais da medicina esportiva brasileira. Runco era o médico da seleção brasileira na Copa de 2002, na última vez em que o Brasil levantou a taça. Faz sentido ser tão procurado. Aquele foi um momento de glória numa carreira que começou muitos anos antes. E as primeiras sementes foram plantadas, inesperadamente, pelo futebol. O jovem José Luiz, carioca do Rio Comprido, ia fazer engenharia como o irmão, incentivado pelo pai, o imigrante italiano Giuseppe Runco. Jogando de zagueiro numa pelada, “Zé” se machucou, e os médicos recomendaram cirurgia no joelho. “Fui operado na Beneficência Portuguesa, e aí aconteceu uma coisa espiritual, inexplicável. Quando entrei no pavilhão cirúrgico... me apaixonei por aquele ambiente”, lembra Runco, 53 anos depois. Cada esporte tem a sua característica e provoca um tipo diferente de lesão” Para surpresa de toda a família, foi fazer medicina, primeiro em Valença, depois em Petrópolis, mais perto da namorada Lucia, a médica com quem é casado desde os tempos da faculdade. O celular de Runco sossega depois de ele deixar claro que não falaria com ninguém sobre Neymar, e ele consegue estudar o cardápio do restaurante Casa Tua Cucina, na Barra da Tijuca. Pede ao maître explicações sobre “o risoto de Veneza”, prato que acabou escolhendo para este “À Mesa com o Valor”. “Na faculdade teve um período curto em que eu me empolguei com neurologia, mas a grande atração sempre foi a ortopedia”, diz, antes de pedir água sem gás e aceitar a sugestão de beber um vinho tinto uruguaio. Por uma dessas coincidências da vida, o primeiro emprego no futebol veio pelas mãos do dr. José Carlos de Felipe, o mesmo que lhe operara o joelho. “Ele era médico do Vasco da Gama, e eu entrei lá como estagiário, no quinto ano da faculdade. Dez dias depois da formatura, em dezembro de 1979, o Vasco assinou minha carteira.” José Luiz Runco diz que foram os métodos brasileiros que permitiram que o Brasil contrariasse médicos de fora e colocasse Rivaldo e Ronaldo em campo na Copa de 2002 Leo Pinheiro/Valor A necessidade de adaptar horários na época da residência médica em Niterói obrigou Runco a se afastar do futebol para trabalhar no remo do Vasco, atividade que começa na lagoa Rodrigo de Freitas às 5 da manhã. “Sete e quinze eu pegava meu fusquinha e, com pouco tráfego, antes das oito horas já estava do outro lado da baía fazendo o primeiro ano da residência.” Cuidar dos remadores e seus problemas de articulação abriu novos interesses na carreira do jovem médico. Mais tarde ele trabalharia com atletismo, sua maior paixão depois do futebol. “Cada modalidade esportiva tem a sua característica e provoca um tipo diferente de lesão. O atletismo, a natação, o remo, o vôlei. Mas a essência e os conceitos da medicina têm que ser os mesmos”, diz. “No vôlei, as lesões dos membros superiores são mais comuns, então hoje existe uma subespecialidade que cuida apenas de ombro, que é muito estudado”, diz. “No vôlei não há contato entre os jogadores, mas um atleta que salta muito pode cair de mau jeito e romper os ligamentos do joelho, isso não é incomum”, acrescenta. Falando baixo, Runco reflete sobre os avanços da medicina esportiva de hoje e se coloca como “conservador” numa opinião, segundo ele, compartilhada por muitos de seus colegas “mais maduros”. Runco com a mulher, Lucia, e os filhos no retorno do Japão, depois do Penta Acervo pessoal “Para mim, a essência da medicina é escutar o doente e fazer o exame físico”, diz com convicção. “Hoje tem uma preocupação muito grande com os exames de imagem e nem sempre o que o exame demonstra é aquilo que tem expressão clínica.” Runco vai mais longe na defesa do que para ele é essencial: “Eu tenho que pedir um exame de imagem já com um diagnóstico mais ou menos configurado na minha cabeça. Quando escuto ‘vamos fazer a ressonância para ver o que tem’, isso me soa mal. A gente não pode esquecer de fazer perguntas, escutar e botar a mão no doente”, enfatiza. A medicina esportiva brasileira é hoje reconhecida internacionalmente. Runco viu de perto isso acontecer, começando no Mundial sub-20 que o Brasil ganhou em 1985 na antiga União Soviética, até as três Copas com a seleção profissional (Coreia/Japão 2002; Alemanha 2006 e África do Sul 2010). Sem falar nos dois anos que passou trabalhando na seleção do Iraque, no fim dos anos 80, ganhando experiência e prestígio internacional. Nos clubes de futebol e na seleção brasileira, imperam métodos comprovados de tratamento de lesões. “Desenvolvemos um tratamento que a gente chama ‘conservador’, que não envolve cirurgia. A fisioterapia ocupou um espaço espetacular, faz o atleta voltar o mais rápido possível, porque ela primeiro faz a prevenção para evitar a lesão”, esclarece. Além disso, nos últimos anos houve uma melhora nas instalações de muitos clubes de futebol, que investiram em centros de treinamento, os CTs, que permitem aos lesionados se dedicar melhor à recuperação. “Hoje há nutricionistas orientando os jogadores, eles comem de tudo. Quando eu comecei, cabia ao médico fazer o cardápio, que era arroz, só o caldo do feijão, um bifinho e salada sem alface, que dá sono”, conta Runco. “Nutrição, fisiologia e fisioterapia fizeram bem também do ponto de vista das cirurgias. Agora, além da técnica operatória, vem junto o tratamento de todos esses profissionais e com alimentação adequada, a resposta é muito mais rápida.” Resposta mais rápida quer dizer trazer o jogador de volta ao time no menor prazo possível. Essa realidade era diferente 24 anos atrás, quando Runco garantiu ao técnico Felipão que Rivaldo e Ronaldo podiam ser convocados pela seleção para disputar a Copa 2002. Na formatura do curso de medicina, que estudou em Valença e Petrópolis Acervo pessoal Com Rivaldo a polêmica se tornou pública. O jogador tinha um problema no joelho, e os médicos do Barcelona, onde ele jogava, queriam operar. Runco discordou e tratou o atleta no Brasil, sem cirurgia. A caminho da Copa na Coreia, a seleção ficou uma semana treinando em Barcelona e os médicos do clube incendiaram a imprensa brasileira afirmando que Rivaldo não tinha condições de jogar o mundial. “Tive que dar entrevista para mais de 100 jornalistas e disse com todas as letras que ele jogaria a Copa sem problema.” Runco ganhou essa: Rivaldo foi considerado um dos melhores jogadores daquela Copa. “Com Ronaldo foi diferente. Ele estava encostado na Inter de Milão, com um problema na coxa que nunca resolvia. E avisou o Felipão que viria ao Rio procurar tratamento. Era véspera de Carnaval, o que gerou muita fofoca”, conta Runco com um sorriso. “Montamos uma equipe de fisioterapia e deixamos claro, numa reunião de mais de quatro horas, que tudo dependia dele, o atleta. E o Ronaldo estava muito empenhado, cumpriu todas as etapas, não atrasava e não faltava às sessões, duas vezes por dia. Esse período foi espetacular.” Em 30 dias, Felipão o convocou para um amistoso, e o resultado desse trabalho está na história do futebol mundial: Ronaldo jogou a Copa 2002 e foi decisivo naquela conquista. Nem todo jogador se comporta dessa maneira. O futebol até inventou uma palavra (chinelinho) para identificar os atletas que preferem distância das chuteiras. “Acho que existem atletas que não gostam do que fazem, não têm autoestima e atuam sem motivação. Para mim isso é mais dramático no futebol de base. Não admito um cara da base, com perspectiva de crescer, não se dedicar”, diz. Runco acredita que o futebol brasileiro tem que se reformar a partir da base, que deveria servir apenas para formar os jogadores. “Hoje a base exige resultados, tem que ganhar campeonatos, levantar taças. Os treinadores ali são muito cobrados para ganhar títulos e, na minha opinião, essa não é a essência da base, que é formar o atleta.” Runco valoriza as partidas preliminares de décadas atrás que os jogadores da base disputavam antes dos jogos “de fundo” nos grandes estádios. “Era muito bom pros meninos. Eles se viam num ambiente com uns 20 mil torcedores, metade querendo que ele acertasse, metade querendo que ele errasse. E quando ele errava, era vaiado pelos 20 mil. Você já se imaginou com 20 mil pessoas olhando seu trabalho?”, pergunta Runco. “Aquela garotada começava a entender cedo o que isso significa. Eu acho que aqueles jogos da base, na preliminar do profissional, eram fundamentais para a formação dos jovens.” O jogador de futebol é muitas vezes visto como “criança”, e Runco discorda dessa abordagem. “São jovens. Para ter uma vida regrada entre jogadores de futebol, você perde boa parte da sua juventude. Ah, mas ele ganha muito dinheiro... É verdade, mas a idade não volta.” Um dos campeões com quem Runco trabalhou foi Zagallo, que ele considera “um mito” Acervo pessoal Na contramão do que muita gente pensa, Runco acredita que o jovem jogador de futebol “gosta de ser cobrado, gosta de ter horário, gosta de ser corrigido, gosta de ter ao seu lado uma pessoa que o ajude dentro de cada uma das suas áreas profissionais, seja nutricionista, fisioterapeuta, médico ou treinador”. E jogador violento, existe, depende da formação? Runco admite jogador viril, que usa a força física como ferramenta, mas sem maldade. “Vou partir do princípio humano. Eu não acredito que um cara vai jogar bola e vai entrar para quebrar o outro. Ele também um dia pode ser quebrado. Agora, existem jogadores que têm uma metodologia mais agressiva, mais forte, isso faz parte do futebol.” Runco já trabalhava no Flamengo em 1985 quando Zico, o maior ídolo rubro-negro, sofreu uma dura entrada num jogo contra o Bangu, que teve consequências pelo resto da carreira do Galinho: torção severa, rompimento de ligamentos nos dois joelhos, lesão na fíbula e nos tornozelos. “Eu era médico da base do Flamengo, mas estava com a seleção brasileira sub-20, fora do Rio, quando aconteceu. Olhando a maneira que o Marcio Nunes entrou, dá a impressão que ele quis machucar. Ele entrou forte e não tinha jeito de o Zico sair da situação. Talvez eu seja um dinossauro, mas eu acredito no ser humano e, honestamente, não acho que ele entrou para quebrar.” A lesão foi grave na época e seria grave hoje, “ligamento cruzado do joelho”, diz Runco, mas com as técnicas atuais talvez Zico pudesse ter se recuperado melhor. Joelho é a grande especialidade de José Luiz Runco, que é considerado um mestre nas dores e delícias dessa articulação tão fundamental em qualquer modalidade esportiva. Ironicamente, foi por causa de um joelho (ou dois) que ele deixou o Flamengo, clube onde passou 30 anos de sua vida profissional. Foi em julho do ano passado. Runco foi demitido do Flamengo depois de escrever num grupo de WhatsApp com 71 membros que o jogador uruguaio Nico De La Cruz, trazido ao Flamengo por milhões de dólares, “tem uma lesão crônica e irreparável nos joelhos”. “Deveria ser uma confidência para uma pessoa só, um colega médico, coisa para ser dita ao pé do ouvido, mas foi para o grupo todo e eu acabei demitido”, confessa Runco. Trabalhar 30 anos no Flamengo não fez de Runco um rubro-negro. Bastante discreto, ele nunca alardeou suas preferências pelo Botafogo, pois acha que isso poderia contrariar e ofender algumas pessoas, que não entenderiam. “Mas eu nasci em 1955 e tinha 10 anos quando o Botafogo ganhava tudo, então foi identificação de menino. E, na verdade, quando você começa a trabalhar com futebol, você deixa de ser torcedor, pensa no seu projeto profissional e foi isso que eu fiz”, revela. No currículo profissional ele tem menos de dois anos de trabalho no Botafogo, na época em que a medicina esportiva alvinegra era comandada pelo médico que o antecedeu na CBF, o dr. Lídio Toledo (1933-2011). Embalada pela vitória em Yokohama, no Japão, na final da Copa 2002, a seleção brasileira chegou à Alemanha como grande favorita para a Copa 2006, ainda mais depois de ganhar a Copa das Confederações no ano anterior. Mas foi eliminada pela França, nas quartas de final, um resultado que Runco atribui a coisas do futebol. “Estávamos indo muito bem até o jogo da França e perdemos numa jogada, eles fizeram o gol e acabou”, analisa. Para o torcedor brasileiro, entretanto, aquela foi a Copa dos “gordos”, atletas sem condições de jogar futebol. O homem que pesava os jogadores era Runco. “Ronaldo e Adriano estavam em férias, relaxaram e realmente se apresentaram acima do peso. Mas eles trabalharam, treinaram e quando começou a competição estavam no peso normal. Não foi isso que nos derrotou”, enfatiza Runco, para quem as alegações de que havia jogadores preguiçosos naquele time são apenas opiniões, “questão de visão”. Nessa longa trajetória pelo futebol, Runco trabalhou com dezenas de treinadores, entre eles históricos campeões do mundo, como Zagallo, “um mito”, e Parreira, “um amigo”, além de Luís Felipe Scolari. Na Copa 2010, o técnico era Dunga, campeão em 1994 como jogador. “Ele tinha o time na mão”, garante Runco. “Todos choraram muito depois de perder da Holanda na quarta de final, nunca tinha visto nada igual.” Naquele jogo, no estádio Nelson Mandela, em Port Elizabeth, na África do Sul, o Brasil fez um primeiro tempo primoroso, mas apenas um gol. No segundo tempo, os holandeses viraram, acabou 2 a 1. “A derrota foi muito forte pra gente. Em 2006, nós perdemos da França por um lance de jogo, mas em 2010 o Dunga conseguiu formar um grupo, é merecedor de aplausos, doeu muito sair da Copa daquele jeito.” Runco cita dois dos inúmeros técnicos com quem trabalhou. Primeiro Otto Gloria, um brasileiro que fez grande sucesso em Portugal. “Trabalhei com ele no Vasco da Gama, quando eu estava começando. Mas gosto de lembrar também do Evaristo de Macedo, que parava os treinos para mostrar aos jogadores como se devia bater na bola. Era muito respeitado por ter sido campeão por onde passou.” Em anos recentes, nosso futebol se transformou em campo fértil para técnicos estrangeiros, começando pelos profissionais do nosso continente, argentinos, chilenos e uruguaios, e agora com os portugueses, que acenam com boa formação teórica e levaram alguns clubes a ótimos resultados. Sem falar que a seleção hoje é dirigida por um italiano. “Nada contra os estrangeiros”, diz Runco. “O que eles trazem e pedem introduz uma metodologia diferente, não sei se melhor ou pior, mas diferente”, enfatiza. “Na parte física, a demanda que eles pedem aos jogadores também é diferente e afeta a preparação física e o trabalho dos médicos.” Isso explica por que os técnicos portugueses nunca chegam sozinhos, trazem suas próprias equipes de preparadores. Ninguém pede sobremesa, e os garçons do Casa Tua Cucina trazem os cafezinhos que encerram nosso almoço, quando alguém lembra que hoje ainda tem jogo na TV. Como todo brasileiro que gosta de futebol, Runco está acompanhando a Copa 2026. Se diz encantado com Messi, “o melhor estrangeiro que eu vi jogar”, mas lembra que “nós tivemos Pelé, que era fantástico”. “Vi seleções boas nesta e em outras Copas. Mas para mim a melhor de todas ainda é, e sempre será, a seleção de 1970, a que ganhou o Tri para o Brasil. Eles jogavam um futebol bonito, solto, deixou uma marca muito importante para nós”, finaliza.
Fonte original: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2026/07/03/medico-da-selecao-brasileira-em-tres-copas-defende-uma-medicina-alem-dos-exames.ghtml
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