Helicópteros na Faria Lima viram alvo de reclamações por barulho excessivo

Helicópteros na Faria Lima viram alvo de reclamações por barulho excessivo

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Barulho de hélice o dia inteiro como um zumbido constante que perturba o sono e acaba com o humor. É assim que uma moradora da região da Faria Lima, coração do


Barulho de hélice o dia inteiro como um zumbido constante que perturba o sono e acaba com o humor. É assim que uma moradora da região da Faria Lima, coração do mercado financeiro em São Paulo, a maior cidade do Brasil, descreve o que tem vivido nos últimos meses. Ela reclama que o aumento de pousos e decolagens de helicópteros próximos ao seu apartamento extrapola os limites permitidos de frequência, nível de barulho e horário. Ao Valor, Ciça Lolata, de 45 anos, diz que já chegou a registrar 15 voos em um único dia sobrevoando ao redor de seu apartamento, e que o barulho registrado alcança os 90 decibéis nos momentos mais críticos — o que, segundo ela, vem acontecendo em detrimento de sua saúde mental. "Ouvir o barulho das hélices acaba com meu dia. Tem manhã que já acordo com helicóptero passando", desabafa. "Parece que a minha dignidade está sendo violada, é algo que pega na minha alma. Eu não aguento mais tanto barulho." Ela mora no mesmo apartamento desde 2006, localizado próximo ao cruzamento das avenidas Faria Lima e Juscelino Kubitschek. Como trabalha de home office e passa a maior parte do dia em casa, precisou instalar uma porta antirruído para diminuir o desconforto. A moradora disse que acionou o Ministério Público (MP) sobre o excesso de helipontos próximos. Uma dessas reclamações, segundo informou o MP, foi enviada ao Ministério Público Federal (MPF), enquanto a outra, mais recente, ainda está sob análise. O MPF, por sua vez, disse que arquivou o procedimento porque "a apuração preliminar não demonstrou haver omissões do Comando da Aeronáutica na regulamentação e no monitoramento de voos de helicóptero na região". Initial plugin text s O cruzamento próximo de seu apartamento abriga o maior número de helipontos da região. Com o auxílio do sistema GeoSampa, o Valor contou oito helipontos particulares ativos e outros dois que tiveram licença indeferida no entorno do cruzamento. Arte / Valor A legislação paulistana (Lei Municipal nº 15.723/13 e o Decreto nº 58.094/18) não limita quantos helipontos podem ser construídos em determinada região, desde que não seja em áreas classificadas como zona residencial no Plano Diretor. A Faria Lima é uma zona mista e, portanto, helicópteros podem trafegar na região. Há, porém, uma normativa do Departamento de Controle do Espaço Aéreo, da Aeronáutica, que sugere um heliponto a cada 500 metros por segurança. Procurada pelo Valor, a FAB não respondeu. O espaço segue aberto. São Paulo está entre as cidades com o maior número de operações com helicópteros no mundo. São cerca de 1,3 mil pousos e decolagens por dia, de acordo com a Associação Brasileira dos Pilotos de Helicóptero (Abraphe), em cerca de 200 helipontos localizados principalmente em postos-chaves da cidade, como nas avenidas Faria Lima e Paulista. A urbanista Lucila Lacreta, que faz parte do Movimento Defenda São Paulo e é membro da Câmara Técnica de Legislação Urbanística (CTLU), que avalia a documentação para liberação dos alvarás de novos helipontos, reclama que a prefeitura não tem um mapa da infraestrutura aeroviária e que a fiscalização é insuficiente. "Ninguém controla voo de helicóptero em São Paulo." A Abraphe defende que atribuir aos helicópteros o papel principal no desconforto acústico em uma região como a Faria Lima constitui "uma análise tecnicamente imprecisa". Segundo a associação, a região tem um ruído de fundo já naturalmente elevado, e defende que a frequência sonora de um helicóptero pode ser inferior ou equivalente a outras fontes mais constantes, como transporte público e obras de construção civil. "Do ponto de vista da dosagem de ruído, a contribuição dos helicópteros [entre 75 e 85 dB, segundo a associação] para a poluição sonora média diária na Faria Lima é estatisticamente marginal quando comparada ao tráfego rodoviário [entre 85 e 90 dbS] e à construção civil [90 a 105 dBs]", diz a Abraphe. Falta fiscalização, diz moradora Dos oito helipontos localizados no cruzamento próximo ao apartamento de Ciça Lolata, a moradora afirma que uma pista em específico extrapola os limites autorizados pela prefeitura. Em vídeos em série, todos publicados em seu perfil na rede social, ela acusa o edifício Double Space (também conhecido como Hotel Blue Tree Towers) de fazer até dez ciclos por dia — no jargão técnico da área, um ciclo é o conjunto pouso e decolagem —, e muitas vezes durante a noite. Cada saída ou chegada de helicóptero pode levar de cinco a dez minutos de barulho ininterrupto, diz a moradora. O edifício tem autorização para apenas dois ciclos diários e oferece serviço de receber hóspedes no heliponto. Em uma notícia publicada no site BrasilTuris, a empresa disse que, entre março e abril passados, ocorreu uma média de 210 operações mensais no heliponto do hotel. O Valor entrou em contato com a empresa, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto. A prefeitura disse, em nota enviada ao Valor, que a subprefeitura Pinheiros mantém o local no cronograma de fiscalização das equipes que verificam o cumprimento das condições estabelecidas, incluindo o limite autorizado de dois ciclos diários de pousos. Disse ainda que, caso sejam constatadas irregularidades, serão adotadas as medidas administrativas previstas na legislação vigente. Incomodados que se mudem? Na "guerra" contra os helicópteros, Ciça criou um perfil no Instagram para divulgar a causa e distribuiu panfletos em prédios vizinhos. Com a exposição, em contraponto ao ganho de visibilidade para o assunto, teve que lidar com sugestões e convites pouco amigáveis para se mudar do bairro, vindos daqueles que se incomodaram com seus esforços online. "Essa é minha casa. Por que eu tenho que mudar daqui? Isso não é justo", responde.
Fonte original: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/07/02/helicopteros-na-faria-lima-viram-alvo-de-reclamacoes-por-barulho-excessivo.ghtml
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