El Niño vira o clima do avesso e ameaça o agro no Brasil

El Niño vira o clima do avesso e ameaça o agro no Brasil

7 min de leitura 5 visualizações Fonte original

Ao traduzirmos “El Niño” do espanhol, temos “O Menino”. Fazendo jus ao nome, o fenômeno age como um garoto travesso que chega para bagunçar o clima no mundo qua

Ao traduzirmos “El Niño” do espanhol, temos “O Menino”. Fazendo jus ao nome, o fenômeno age como um garoto travesso que chega para bagunçar o clima no mundo quando as águas do Pacífico Equatorial aquecem mais do que o normal. Mudanças no regime de chuvas, ondas de calor, secas prolongadas e enchentes passam a ocorrer com maior frequência em diferentes partes do planeta.

No Brasil, essa “traquinagem” se traduz em uma perigosa divisão meteorológica: enquanto as regiões Norte e Nordeste entram em estado de atenção devido à seca severa e ao risco de incêndios florestais, o Sul do país se prepara para chuvas torrenciais, enchentes e ciclones.

Em resumo:

  • O El Niño é um fenômeno que intensifica eventos climáticos extremos;
  • No Brasil, provoca secas no Norte e chuvas intensas no Sul;
  • Fenômeno reduz safras, eleva preços dos alimentos e afeta a economia;
  • Um Super El Niño pode ampliar desastres e perdas agrícolas;
  • Tecnologia, seguros e manejo sustentável ajudam produtores a reduzir impactos.
El Niño
Cada região do Brasil reage ao El Niño à sua maneira. – Credito: Imagem gerada por IA/Gemini

Como o El Niño influencia os preços dos alimentos

Além de sobrecarregar o sistema de saúde, comprometer o abastecimento de energia elétrica e colapsar a infraestrutura das cidades, essa instabilidade também pesa no bolso dos produtores de quase tudo que consumimos.

“Por um lado, a gente tem Norte e Nordeste que enfrentam secas severas e estiagens históricas, falta água para o pasto, a pecuária de leite sofre muito, as grandes plantações de grãos sofrem muito e frutas regionais sofrem perdas graves. Por outro lado, a gente vai ter Sul e Sudeste que vivem o extremo oposto. O excesso de umidade vai favorecer o surgimento de doenças nas plantas. Para piorar, as ondas de calor intenso fazem o café abortar suas flores e estragam as lavouras de hortaliças antes mesmo da colheita”, explicou Bruno Dupin Gaspar, engenheiro agrônomo com extensa experiência em empresas multinacionais e referência internacional em tecnologia e inovação, especialmente no agronegócio, em entrevista ao Olhar Digital.

“É a lei da oferta e da procura”, resume o especialista. “Com a produção nacional prejudicada pelo clima, o volume de alimentos que chega ao centro de distribuição despenca. Se a oferta cai e a procura continua a mesma, o preço nas prateleiras dispara. E aí é exatamente onde a inflação de alimentos acontece, pesando diretamente no orçamento das famílias”.

el niño agro
Está achando caro o óleo de soja e outros alimentos? Com o El Niño, isso deve piorar ainda mais. – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini

O fantasma do “Super El Niño” e as lições do passado

O Brasil tem um histórico marcante de prejuízos causados por esse aquecimento do Pacífico. Entre 2015 e 2016, o país viveu impactos severos na produção agrícola. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que a produtividade de grãos despencou na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) devido à seca severa daquela época.

Atualmente, o maior receio dos meteorologistas é a consolidação de um “Super El Niño“. Esse termo é usado pela comunidade científica quando o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial é extremo, ultrapassando a marca crítica de 2℃ acima da média histórica – um limite alcançado pouquíssimas vezes no último século e que eleva drasticamente o risco de desastres climáticos globais.

Sob a influência de um evento dessa magnitude, os impactos climáticos tradicionais são amplificados significativamente. O Nordeste passa a enfrentar estiagens históricas e secas prolongadas, enquanto a região Sul fica sujeita a volumes de precipitação extraordinários, com enchentes e tempestades violentas capazes de causar a perda total de lavouras e a degradação profunda do solo.

Segundo Gaspar, as crises geradas por eventos de El Niño intensos, como o de 2015-2016, trazem uma lição importante. “De lá para cá, a gestão de risco no agronegócio brasileiro amadureceu bastante, os produtores e as entidades do setor entenderam que o futuro da atividade depende de estratégias inteligentes que vão além do manejo de terra e hoje diretrizes da CNA e do Ministério da Agricultura focam em criar defesas financeiras mais robustas”.

Bruno Dupin
Bruno Dupin, engenheiro agrônomo referência internacional em tecnologia e inovação. – Crédito: Olhar Digital

Soluções que ajudam o campo a enfrentar o El Niño

Ele se refere a soluções práticas de adaptação climática que vêm sendo implementadas em diferentes regiões do país. “Por exemplo, no oeste da Bahia, a região que se consolidou como uma liderança nacional em irrigação sustentável, o segredo é a gestão hídrica responsável. Então, os produtores monitoram os aquíferos e usam sistemas automatizados para aplicar a quantidade exata de água que o solo precisa. Isso permite até duas safras anuais, mesmo em períodos sem chuva, sem esgotar o meio ambiente”.

Já no centro-oeste, Gaspar diz que o foco da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está no manejo de inteligência da terra. “Os produtores têm recorrido ao sistema de plantio direto e à rotação de culturas, como por exemplo o cultivo de arroz de sequeiro em sucessão à soja. Esse processo cria uma camada de palha sobre o solo, funcionando como uma cobertura morta. Essa camada protege a umidade natural da terra e evita o superaquecimento das raízes durante os veranicos, que são aqueles períodos de calor e seca no meio do verão”.

Para dar suporte a essas mudanças, o setor investe em proteção no campo. Segundo o engenheiro agrônomo, a principal ferramenta é o seguro agrícola. “Ele funciona como seguro de carro, por exemplo. Então, se o clima castiga e a safra é perdida, o seguro garante a estabilidade de renda daquela família. E, além disso, existem investimentos focados em construir reservatórios comunitários de água, garantindo abastecimento regional durante a estiagem”.

Leia mais:

A inteligência artificial como aliada da lavoura

Sistemas de inteligência artificial desenvolvidos pela Embrapa já cruzam dados de satélite e históricos climáticos para prever cenários na lavoura. Os modelos conseguem estimar janelas ideais de plantio e identificar indícios de doenças foliares antes da proliferação na plantação. A democratização dessa tecnologia ocorre por meio de iniciativas como o projeto Semear Digital, voltado para a introdução das ferramentas na agricultura familiar.

“Eles conseguem mapear e identificar pragas ou áreas com estresse hídrico, que é quando a planta começa a passar sede, antes que o olho humano consiga notar algum problema. Isso permite ao produtor agir rápido e economizar recursos”, explica Gaspar.

Na operação de campo, a tecnologia atua no controle de insumos e recursos. Drones e sensores acoplados ao maquinário realizam o mapeamento em tempo real. A partir desse diagnóstico, os sistemas automatizados direcionam a aplicação de água e defensivos agrícolas de forma cirúrgica, reduzindo o custo operacional e o impacto ambiental em períodos de instabilidade climática.

“Então, contra a força do clima, a melhor resposta do nosso agronegócio é a união de três fatores: a tecnologia, o planejamento financeiro e a sustentabilidade”, conclui o especialista.

O post El Niño vira o clima do avesso e ameaça o agro no Brasil apareceu primeiro em Olhar Digital.

Fonte original: https://olhardigital.com.br/2026/06/26/ciencia-e-espaco/el-nino-vira-o-clima-do-avesso-e-ameaca-o-agro-no-brasil/
Salvar WhatsApp X

Comentários

Seja o primeiro a comentar!

Entre na sua conta para comentar.

Entrar Criar conta

Leia também

Próxima notícia

24 de jun. de 2026

Evidência de vida antiga em Marte? Veículo da NASA encontra carbono orgânico

Fique por dentro das notícias

Receba os melhores conteúdos diretamente no seu e-mail.

💡 Sugestões